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Nvidia – A Grande Vencedora da Corrida da IA

Na última quarta-feira, 29 de outubro, a Nvidia escreveu mais um capítulo na história dos mercados: tornou-se a primeira empresa do mundo a valer US$ 5 trilhões na Bolsa. Apenas três meses antes, em julho, ela havia sido também a primeira a atingir US$ 4 trilhões. Para efeito de comparação, há cerca de dez anos a companhia valia pouco mais de US$ 10 bilhões.

Por trás dessa escalada está a inteligência artificial. Mas a história da Nvidia não é a de uma empresa que pegou carona em uma onda passageira, e sim a de uma companhia que passou décadas construindo, peça por peça, a infraestrutura sobre a qual a IA moderna foi erguida. Entender essa trajetória – e os riscos que vêm com ela – é essencial para qualquer investidor nos dias de hoje.

De uma lanchonete para os videogames

O ano era 1993. Em uma mesa da rede de lanchonetes Denny’s, em San José, na Califórnia, três engenheiros – Jensen Huang, Chris Malachowsky e Curtis Priem – discutiam uma ideia: os computadores pessoais se tornariam cada vez mais populares e precisariam de chips capazes de gerar gráficos em três dimensões. Nascido em Taiwan e criado nos Estados Unidos, Huang havia trabalhado na juventude justamente em uma unidade da Denny’s, lavando pratos e servindo mesas. Assumiu o comando da nova empresa e, mais de três décadas depois, continua à frente dela.

Os primeiros anos foram difíceis, e a companhia chegou a correr risco real de quebrar. A virada veio em 1999, com o lançamento da GeForce 256, apresentada ao mercado como a primeira GPU (unidade de processamento gráfico) do mundo. Durante os anos seguintes, a Nvidia se consolidou como líder em placas de vídeo para jogos, um mercado lucrativo, mas que parecia ter limites claros.

Como a Nvidia pavimentou o caminho da inteligência artificial

O segredo estava no processamento paralelo. Para gerar imagens realistas, uma GPU precisa fazer milhares de cálculos simples ao mesmo tempo. Pesquisadores logo perceberam que essa mesma capacidade poderia ser usada em simulações científicas e em outros problemas que exigem enorme volume de contas.

A aposta no CUDA. Em 2006, a Nvidia lançou o CUDA, uma plataforma de programação que permitiu a cientistas e desenvolvedores usarem suas placas para tarefas que nada tinham a ver com gráficos. Na época, a decisão foi vista com desconfiança, porque exigia investimentos pesados sem retorno imediato. Com o tempo, porém, o CUDA se tornou o padrão da computação científica – e uma das maiores vantagens competitivas da empresa, já que milhões de programadores aprenderam a trabalhar nele.

O momento AlexNet. Em 2012, uma rede neural chamada AlexNet, treinada em placas da Nvidia, venceu com folga uma das principais competições de reconhecimento de imagens do mundo. O resultado provou que as redes neurais profundas funcionavam – desde que houvesse poder de processamento suficiente. Era o início da era moderna da IA, e a Nvidia estava no lugar certo, com o produto certo.

Dos jogos para os centros de dados. A partir daí, a companhia redirecionou sua estratégia e passou a desenvolver chips e sistemas completos para grandes centros de dados. Quando o ChatGPT foi lançado, no fim de 2022, e desencadeou a corrida global pela IA generativa, praticamente todas as grandes empresas de tecnologia precisaram dos mesmos equipamentos – e a Nvidia era quem os fornecia. Em uma corrida do ouro, ela se tornou a principal vendedora de pás. No fim de outubro, Jensen Huang anunciou encomendas de chips de IA da ordem de US$ 500 bilhões.

Os desafios para o futuro

Concorrência crescente. O sucesso atrai rivais. A AMD investe pesado em chips para IA, e os próprios clientes da Nvidia – como Google, Amazon e Microsoft – desenvolvem processadores próprios para reduzir a dependência da fornecedora e o custo de seus centros de dados.

Clientes concentrados. Uma parcela muito grande da receita vem de um pequeno grupo de gigantes da tecnologia. Se essas empresas decidirem reduzir o ritmo dos investimentos em IA, o impacto sobre a Nvidia será imediato.

Geopolítica. As restrições impostas pelo governo americano à exportação de chips avançados para a China limitam o acesso da companhia a um dos maiores mercados de tecnologia do mundo. Além disso, boa parte da fabricação depende de fábricas em Taiwan, em uma região de tensões permanentes.

Energia e infraestrutura. Os novos centros de dados consomem quantidades gigantescas de eletricidade. A disponibilidade de energia pode se tornar um gargalo para o crescimento de toda a indústria.

Existe risco de uma bolha como a do ponto.com?

Ao mesmo tempo em que a Nvidia bate recordes, os alertas se multiplicam. No início de outubro, o Banco da Inglaterra afirmou que o risco de uma correção acentuada dos mercados aumentou, especialmente nas empresas ligadas à IA, e o Fundo Monetário Internacional fez advertência semelhante dias depois. Também chamou atenção o anúncio, em setembro, de que a Nvidia poderá investir até US$ 100 bilhões na OpenAI – que, por sua vez, usará os recursos para comprar chips da própria Nvidia. Para muitos analistas, esse tipo de arranjo circular é um sinal típico de euforia.

O paralelo histórico mais lembrado é o da Cisco. Durante a bolha da internet, a empresa fornecia os equipamentos que sustentavam a expansão da rede – era a “vendedora de pás” daquela corrida do ouro – e chegou a ser a companhia mais valiosa do mundo em março de 2000. Quando a bolha estourou, o Nasdaq perdeu cerca de 78% do seu valor em pouco mais de dois anos. A Cisco continuou existindo e lucrando, mas suas ações passaram décadas sem recuperar o pico. A lição é clara: uma empresa excelente pode ser um péssimo investimento se o preço pago for alto demais.

Há, porém, diferenças relevantes. Ao contrário de muitas empresas da era ponto.com, que sequer tinham receita, a Nvidia é extremamente lucrativa, gera caixa em volume impressionante e tem encomendas concretas de seus clientes. A questão central não é se a inteligência artificial é real – ela claramente é –, mas sim se os lucros futuros serão grandes o suficiente para justificar o valor de mercado atual. E essa resposta ninguém tem com certeza.

Conclusão

Em resumo, a Nvidia é uma das histórias empresariais mais impressionantes do nosso tempo: nasceu em uma lanchonete, quase quebrou nos primeiros anos e, graças a apostas de longo prazo feitas quando ninguém acreditava nelas, tornou-se a peça central da revolução da inteligência artificial. É, sem dúvida, a grande vencedora desta primeira fase da corrida.

Para o investidor, porém, a história da Cisco serve de lembrete: vencer a corrida tecnológica e entregar bons retornos aos acionistas são coisas diferentes, e a diferença está no preço pago. Quem deseja participar desse movimento deve fazê-lo com diversificação, sem concentrar a carteira em uma única empresa ou tema, e com disciplina para não se deixar levar pela euforia. Grandes empresas mudam o mundo; grandes investimentos dependem de comprar bem.

Sucesso e Bons Investimentos!