O Ibovespa terminou setembro renovando suas máximas históricas, acima dos 146 mil pontos. Com a Bolsa em recorde, uma pergunta passa a ocupar a cabeça de muitos investidores: as ações ainda estão baratas ou já ficaram caras demais?
Responder a essa pergunta exige mais do que olhar para o gráfico de cotações. Uma ação que subiu muito pode continuar barata, se os lucros da empresa cresceram ainda mais; e uma ação que caiu pode continuar cara. Em nossos artigos sobre Fluxo de Caixa Descontado e sobre Benjamin Graham, vimos que o investidor precisa estimar o valor de um negócio. Hoje vamos conhecer quatro ferramentas mais simples e rápidas para isso: os indicadores fundamentalistas.
P/L: quanto você paga pelo lucro
O P/L (Preço sobre Lucro) é o indicador mais conhecido do mercado. Ele divide o preço da ação pelo lucro anual que a empresa gera por ação. Se uma ação custa R$ 20 e a empresa lucrou R$ 2 por ação no último ano, o P/L é 10.
Na prática, isso significa que, mantido o lucro atual, o investidor levaria cerca de dez anos para “recuperar” o valor pago. Quanto menor o P/L, mais barata a ação parece. No entanto, um P/L muito baixo pode ser um alerta, e não uma oportunidade: muitas vezes, o mercado está antecipando uma queda nos lucros. Por isso, o P/L deve sempre ser comparado com o de empresas do mesmo setor e com o histórico da própria companhia.
ROE: a eficiência do negócio
O ROE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido) mostra quanto a empresa lucra para cada real investido pelos acionistas. Uma companhia com patrimônio de R$ 1 bilhão que lucra R$ 200 milhões por ano tem ROE de 20%.
Em outras palavras, o ROE mede a capacidade da empresa de multiplicar o dinheiro dos sócios. Negócios com ROE alto e consistente ao longo dos anos costumam ter vantagens competitivas duradouras – exatamente o tipo de empresa que Warren Buffett procura. Em um país com Selic a 15%, porém, é importante lembrar: um ROE abaixo dos juros da renda fixa indica que o negócio não está remunerando bem o risco do acionista. Vale também verificar se o ROE elevado não vem apenas de um endividamento excessivo.
Dividend Yield: a renda que a ação paga
O Dividend Yield (DY) mostra quanto a empresa distribuiu em dividendos nos últimos 12 meses em relação ao preço da ação. Se uma ação de R$ 20 pagou R$ 1,20 em dividendos no período, o DY é de 6%.
É o indicador preferido de quem busca renda passiva. Mas aqui também há armadilhas: um DY muito elevado pode ser resultado de um lucro extraordinário, que não vai se repetir, ou de uma queda forte no preço da ação. Mais importante do que o dividendo de um ano é a capacidade da empresa de mantê-lo ao longo do tempo.
Há ainda uma novidade no radar. Na última quarta-feira, 1º de outubro, a Câmara aprovou o projeto que amplia a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e, para compensar, prevê a cobrança de 10% sobre dividendos acima de R$ 50 mil por mês, pagos por uma mesma empresa a uma mesma pessoa. O texto ainda depende do Senado, mas, se aprovado, afetará sobretudo os grandes investidores. Para a maioria das pessoas físicas, os dividendos devem continuar isentos.
EV/EBITDA: o preço da empresa inteira
O EV/EBITDA é um pouco mais sofisticado, mas muito usado pelos analistas profissionais. O EV (Enterprise Value) representa o valor da empresa inteira: o valor de mercado das ações somado à dívida líquida. O EBITDA é o lucro operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização – uma aproximação da geração de caixa das operações.
Uma empresa com valor de mercado de R$ 2 bilhões, dívida líquida de R$ 1 bilhão e EBITDA de R$ 500 milhões tem EV/EBITDA de 6 vezes. A grande vantagem desse indicador é considerar a dívida, que o P/L ignora, permitindo comparar empresas com estruturas de capital diferentes.
Como usar os indicadores juntos
Nenhum indicador, isoladamente, conta a história completa de uma empresa. O verdadeiro poder dessas ferramentas aparece quando elas são analisadas em conjunto. Uma empresa com P/L baixo, ROE alto e consistente, dívida controlada e dividendos regulares tende a ser uma candidata muito mais interessante do que outra que se destaca em apenas um desses critérios.
Além disso, é fundamental comparar empresas do mesmo setor. Um banco, uma varejista e uma empresa de energia têm características muito diferentes, e o que é um P/L “barato” para uma pode ser “caro” para outra. Por fim, os indicadores devem ser o ponto de partida da análise, e não o ponto de chegada: eles mostram onde olhar, mas não substituem o entendimento do negócio.
Conclusão
Em resumo, P/L, ROE, Dividend Yield e EV/EBITDA são como os instrumentos do painel de um avião: cada um mostra uma informação diferente, e o piloto precisa olhar todos para conduzir a viagem com segurança. O P/L indica quanto você paga pelo lucro; o ROE mostra a qualidade do negócio; o Dividend Yield revela a renda gerada; e o EV/EBITDA considera a empresa como um todo, incluindo suas dívidas.
Com a Bolsa em recorde, dominar essas ferramentas é ainda mais importante para separar as empresas que subiram por bons motivos daquelas que apenas acompanharam a euforia. Afinal, investir bem não é comprar o que subiu, mas sim comprar o que vale mais do que custa.
Sucesso e Bons Investimentos!
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