Quem abasteceu o carro em março percebeu antes de qualquer economista: o preço do combustível tinha disparado de uma hora para outra. Em poucas semanas, o petróleo viveu uma das maiores disparadas de sua história, e os efeitos chegaram à bomba de combustível, ao frete, ao supermercado e às decisões dos bancos centrais. Três meses depois do início da guerra no Oriente Médio, já é possível olhar para trás e entender o que aconteceu e, principalmente, o impacto na economia e nas finanças do investidor.
Três meses de montanha-russa
Na véspera do ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, em 28 de fevereiro, o barril do petróleo Brent custava cerca de US$ 72. O Irã reagiu praticamente fechando o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo. Em 9 de março, o barril chegou perto de US$ 120 durante o pregão. Março terminou com uma das maiores altas mensais já registradas, acima de 50%.
Em abril, veio o primeiro alívio. O anúncio de um cessar-fogo provocou, em 8 de abril, a maior queda diária do petróleo desde a Guerra do Golfo, em 1991. Mas a trégua se mostrou frágil, e no fim do mês o barril voltou a superar US$ 110. Em maio, com o avanço das negociações, o preço recuou quase 19% e fechou a semana passada perto de US$ 92, ainda bem acima do nível de antes da guerra.
Como o choque chegou ao bolso do brasileiro
O Brasil é exportador de petróleo e não corria risco de desabastecimento, mas não escapou da alta. O diesel, do qual cerca de 30% é importado, foi o primeiro a sentir: em três semanas de guerra, o preço médio nas bombas subiu cerca de 20%. A Petrobras reajustou o diesel em março, mas segurou o preço da gasolina nas refinarias por quase três meses.
O efeito apareceu na inflação. O IPCA de março subiu 0,88%, a maior alta mensal em um ano, puxado pelos combustíveis. Em abril, a taxa recuou para 0,67%, mas o diesel mais caro passou a encarecer o frete e, com ele, os alimentos. A inflação acumulada em 12 meses chegou a 4,39%, e o mercado já projeta 5,04% para 2026, acima do teto da meta, de 4,5%.
Para conter os preços, o governo criou uma subvenção para os combustíveis, regulamentada em 25 de maio. Graças a ela, o reajuste da gasolina anunciado pela Petrobras na quinta-feira passada, de R$ 0,48 por litro nas refinarias, deve chegar ao consumidor como um aumento de apenas alguns centavos. O alívio na bomba, porém, tem um custo, que aparece nas contas públicas.
O mundo também pagou a conta
Nos Estados Unidos, o choque chegou rapidamente ao posto de gasolina. O galão, que custava cerca de US$ 3 antes da guerra, passou de US$ 4 no fim de abril e superou US$ 4,50 em maio, o maior nível em quatro anos. A inflação americana chegou a 3,8% em doze meses até abril, a maior desde 2023.
A insatisfação aparece em todas as pesquisas. Segundo levantamento da Reuters/Ipsos feito entre 8 e 11 de maio, 64% dos americanos disseram que a alta da gasolina afetou as finanças da família, e mais de 80% esperam novos aumentos. Em outra pesquisa, da ABC News, do Washington Post e da Ipsos, 44% contaram ter reduzido o uso do carro e 42% cortaram outras despesas da casa. O índice de confiança na economia do instituto Gallup caiu em maio ao pior nível desde 2022, e a aprovação do presidente Donald Trump ficou entre as mais baixas de seus dois mandatos, em pleno ano de eleições para o Congresso americano, marcadas para novembro.
Em muitos países da Europa e da Ásia, mais dependentes do petróleo do Golfo, os combustíveis subiram ainda mais do que aqui. Como resultado, os bancos centrais ficaram mais cautelosos: o Fed manteve os juros parados, e aqui o Copom passou a cortar a Selic em ritmo lento, de 0,25 ponto por reunião. Antes da guerra, o mercado esperava a Selic em 12,25% no fim do ano; hoje, projeta 13,25%.
O choque para o investidor
A primeira lição é que choques externos não pedem licença. Em janeiro, quase ninguém incluía uma guerra com o fechamento de Ormuz entre os cenários para 2026, e é justamente por isso que a carteira precisa estar preparada para o inesperado, e não apenas para o cenário mais provável.
O episódio também mostrou, mais uma vez, que a inflação é o inimigo silencioso do patrimônio. Quem tinha parte dos investimentos em títulos atrelados ao IPCA viu essa proteção funcionar na prática, já que esses títulos repõem automaticamente a perda de poder de compra quando os preços aceleram. Foi exatamente esse o argumento para travar parte da carteira em IPCA+, como discutimos aqui em fevereiro.
Ao mesmo tempo, quem tentou correr atrás da alta pagou caro. Quem comprou ativos ligados ao petróleo no pico de março ou de abril viu os preços caírem quase 20% em maio. Commodities são, por natureza, voláteis, e decisões tomadas no calor das manchetes raramente são as melhores.
Por tudo isso, diversificar continua sendo a melhor defesa. Uma carteira com renda fixa, ações de diferentes setores e uma parcela em dólar sofre menos em choques como este. Nenhum ativo isolado protege de tudo, mas a combinação entre eles reduz o impacto de qualquer surpresa.
Em resumo
O choque do petróleo de 2026 mostrou, mais uma vez, como acontecimentos distantes podem mexer rapidamente com o custo de vida e com os juros no Brasil. O preço recuou em maio, mas a guerra não terminou, e a volatilidade deve continuar. Para o investidor, a lição não é tentar prever o próximo movimento do barril, mas sim construir uma carteira capaz de atravessá-lo. Em um mundo de choques inesperados, proteção contra a inflação e diversificação valem mais do que qualquer previsão.
Sucesso e Bons Investimentos!
One Reply to “Guerra no Irã – Uma Bomba nos Preços”
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