Dia de estreia do Brasil na Copa. Família reunida, devidamente uniformizada com suas camisas amarelas, enfeites na sala e todos convencidos de que a estreia contra o Marrocos seria uma vitória tranquila. Vinte minutos depois, Saibari encobriu o Alisson e a sala inteira ficou em silêncio. O gol de Vini Jr. ainda no primeiro tempo trouxe o alívio, mas o 1 a 1 em Nova Jersey deixou aquela sensação estranha de quem já viu esse filme antes.
No domingo de manhã, os grupos de mensagens no Whatsapp já eram mesas redondas pós jogo: “essa seleção não passa das oitavas”, “o Ancelotti errou tudo”.
Foi lendo essas mensagens que me ocorreu: a forma como torcemos diz muito sobre a forma como investimos.
A maior Copa da história, os mesmos velhos vieses
A Copa de 2026 começou no dia 11 de junho, no Estádio Azteca, e é a maior já disputada: 48 seleções, 104 jogos, três países-sede e 39 dias de competição. Mudou o tamanho do torneio, mas não o torcedor, que muitas vezes é o mesmo que decide sobre o próprio dinheiro.
Daniel Kahneman, que aparece na história contada por Peter Bernstein em Desafio aos Deuses, mostrou que nossa mente prefere atalhos rápidos a cálculos cuidadosos. No futebol, esses atalhos rendem boas discussões de bar. Nos investimentos, podem custar caro.
O excesso de confiança antes do apito
Antes da estreia, quase ninguém considerava a hipótese de um empate. A confiança parecia justificada, mas quase ninguém se lembrou que o time do Marrocos foi semifinalista em 2022 e chegou como uma das possíveis surpresas dessa Copa.
O excesso de confiança não é um problema de informação, mas sim de como usamos a informação que temos. Quem compra uma ação “que não tem como dar errado” comete o mesmo erro do torcedor: só enxerga os argumentos a favor. Por isso é fundamental entender o risco de cada investimento antes de colocar seu dinheiro em qualquer aposta “certa”.
Um jogo não define a Copa
O Brasil não chegou a esta Copa como favorito. Mesmo os torcedores mais fanáticos sabiam que o time teria muitas dificuldades, e a maioria das apostas dos especialistas e torcedores recaem sobre Espanha, França e Inglaterra. Ainda assim, bastou um empate para o humor oscilar de um extremo ao outro: houve quem decretasse a eliminação precoce e quem, animado com o golaço de Vini Jr., voltasse a sonhar com o hexa. É o viés de recência: damos peso exagerado ao que acabou de acontecer e esquecemos o que já sabíamos antes.
No mercado, acontece o mesmo. O investidor conhece os riscos e os fundamentos de uma empresa, mas basta a bolsa cair alguns dias seguidos para concluir que ela nunca mais vai subir, ou subir forte para acreditar que a alta é eterna.
Benjamin Graham, em O Investidor Inteligente, deu nome a esse comportamento: o Senhor Mercado. Imagine que você tem um sócio que, todos os dias, oferece um preço para comprar a sua parte ou vender a dele. Quando está eufórico, pede um valor altíssimo; quando está deprimido, aceita vender por quase nada, mesmo que nada tenha mudado no negócio. O Senhor Mercado não é seu conselheiro, mas sim alguém a seu serviço: você pode aproveitar os preços que ele oferece ou simplesmente ignorá-lo. O erro é deixar que o humor dele vire o seu.
A derrota dói mais do que a vitória alegra
Existe um estudo curioso que todo torcedor-investidor deveria conhecer. Em 2007, os professores Alex Edmans, Diego García e Øyvind Norli publicaram no Journal of Finance o trabalho “Sports Sentiment and Stock Returns”, analisando partidas de futebol de 39 países. A conclusão: depois de uma derrota da seleção, a bolsa do país perdedor tende a cair no dia seguinte. Uma eliminação em fase de mata-mata da Copa esteve associada a um retorno cerca de 0,5% abaixo do normal no pregão seguinte.
As vitórias, por outro lado, não produziram efeito equivalente de alta. Isso conversa diretamente com a aversão à perda, um dos achados centrais de Kahneman e Tversky: a dor de perder pesa mais do que o prazer de ganhar a mesma quantia.
Nada mudou nos lucros das empresas; mudou o humor de quem compra e vende. O preço de um ativo, no curto prazo, não é só reflexo de números, mas sim também de emoções.
O efeito manada e o perigo das apostas
Em época de Copa, o efeito manada fica visível: todo mundo repete as mesmas opiniões e, cada vez mais, faz as mesmas apostas. As casas de apostas transformam a paixão em produto, e aí mora o perigo.
Apostar não é investir. Na aposta, a casa define as probabilidades a seu favor e, na média, quem joga perde. No investimento, você se torna sócio de empresas que geram lucro ou empresta dinheiro recebendo juros, e o tempo trabalha a seu favor por meio dos juros compostos. Quem mistura as duas coisas costuma confundir sorte com competência.
Em resumo
O Brasil ainda tem Haiti e Escócia pela frente. Assim como o resultado da estreia não define o campeão, um mês ruim não define uma estratégia de investimentos. Os vieses da arquibancada são os mesmos do home broker. Reconhecer esses vieses é o primeiro passo para que eles não decidam por você.
Torça com o coração, mas invista com a cabeça. É assim que você faz o dinheiro trabalhar a seu favor, com ou sem hexa.
Sucesso e Bons Investimentos!