Quando começamos a investir em ações, é comum olhar primeiro para o lucro. A empresa lucrou mais do que no ano passado? Ótimo sinal. Mas, com o tempo, você percebe que o lucro sozinho conta apenas metade da história. Duas empresas podem lucrar exatamente o mesmo valor e, ainda assim, uma ser um negócio excelente e a outra, um negócio medíocre. A diferença está em quanto capital cada uma precisou usar para chegar a esse lucro. É exatamente isso que o ROIC mostra.
O que é o ROIC
ROIC é a sigla em inglês para Return on Invested Capital, ou retorno sobre o capital investido. Ele mede quanto a empresa gera de lucro operacional para cada real que foi colocado no negócio, seja pelos sócios, seja pelos credores.
A fórmula é simples:
ROIC = lucro operacional após impostos ÷ capital investido
O lucro operacional após impostos, chamado de NOPAT, é o resultado que a empresa gera com a sua atividade principal, já descontado o imposto. No Brasil, uma forma prática de estimá-lo é aplicar sobre o lucro operacional (EBIT) a alíquota de 34% do Imposto de Renda e da CSLL. O capital investido, por sua vez, é a soma do patrimônio líquido com a dívida líquida da empresa.
Um exemplo para entender
Imagine duas empresas que lucram R$ 200 milhões por ano depois dos impostos. A primeira precisou de R$ 1 bilhão em capital para gerar esse resultado, e a segunda precisou de R$ 2 bilhões.
O ROIC da primeira é de 20%. O da segunda, de apenas 10%. Para cada real investido, a primeira gera o dobro de retorno. Se as duas reinvestirem seus lucros, a primeira crescerá muito mais rápido, usando muito menos dinheiro.
O lucro mostra o tamanho do resultado, mas é o ROIC que revela a qualidade do negócio.
ROIC e custo de capital: a conta que importa
Um ROIC positivo não significa, por si só, que a empresa cria valor. O dinheiro investido no negócio tem um custo: os sócios esperam um retorno mínimo, e os credores cobram juros. Esse custo médio é conhecido como WACC, sigla em inglês para custo médio ponderado de capital.
A regra é clara: só há criação de valor quando o ROIC supera o custo de capital. Se a empresa tem ROIC de 10%, mas o seu capital custa 14%, cada real reinvestido destrói valor para o acionista, mesmo que o lucro contábil esteja crescendo.
Essa conta é especialmente importante no Brasil. Na última quarta-feira, dia 16, o Copom reduziu a Selic para 13,75% ao ano, no quinto corte seguido. Mesmo com os cortes, os juros continuam entre os mais altos do mundo, e o custo de capital das empresas brasileiras é elevado. Com um título público rendendo perto de 14% ao ano sem risco, uma empresa precisa entregar um ROIC bem acima disso para justificar o risco de ser sócio dela.
ROIC ou ROE?
Muitos investidores conhecem o ROE, o retorno sobre o patrimônio líquido. Os dois indicadores são úteis, mas há uma diferença importante: o ROE considera apenas o capital dos sócios, enquanto o ROIC inclui também a dívida.
Por isso, uma empresa muito endividada pode exibir um ROE alto sem ser, de fato, um bom negócio. O ROIC elimina essa distorção e mostra a eficiência real das operações. Para bancos e seguradoras, cuja estrutura de capital é diferente, o ROE continua sendo a referência mais adequada.
Na prática: Localiza x Movida
Para ver o indicador em ação, vale comparar as duas maiores locadoras de veículos listadas na bolsa, que divulgaram os resultados do segundo trimestre no início de agosto.
A Localiza informou um ROIC anualizado de 16,1% no primeiro semestre de 2026, contra 13,7% um ano antes. Como o custo da sua dívida após impostos ficou em 10,0%, a diferença entre os dois, chamada de spread, chegou a 6,1 pontos percentuais, dentro da faixa de 5 a 7 pontos que a própria empresa estabelece como meta. A Movida, por sua vez, divulgou um ROIC recorde de 16,7% no trimestre, com spread de 5,7 pontos sobre o custo da dívida.

À primeira vista, os números são parecidos, mas a comparação revela diferenças importantes. A Localiza é muito maior: lucrou R$ 1 bilhão no trimestre, contra R$ 135,6 milhões da Movida, e financia-se com uma dívida mais barata, reflexo da sua escala. Já a Movida mostra uma melhora rápida, com o lucro dobrando em um ano e alavancagem de 2,7 vezes o Ebitda. Dois negócios com retornos semelhantes podem ter riscos e trajetórias bem diferentes.
Vale um cuidado: cada empresa calcula o ROIC à sua maneira e em períodos ligeiramente diferentes, e ambas comparam o retorno apenas com o custo da dívida. Para o acionista, a referência mais exigente é o custo total de capital, que inclui o retorno esperado pelos sócios. O exemplo é apenas educativo e não representa recomendação de compra ou venda.
O ROIC e o fosso econômico
Empresas que mantêm ROIC alto por muitos anos geralmente têm algo que as protege da concorrência, como uma marca forte, custos mais baixos ou clientes fiéis. É o que chamamos de fosso econômico. Sem essa proteção, o retorno elevado atrai concorrentes, e o ROIC tende a cair com o tempo.
Charlie Munger, cuja obra comentei na resenha de A Sabedoria de Charlie Munger, resumia bem essa ideia: no longo prazo, o retorno de uma ação tende a se aproximar do retorno que o próprio negócio gera sobre o seu capital. Uma empresa que obtém retornos altos e consegue reinvestir os lucros a essas mesmas taxas funciona como uma máquina de juros compostos.
Como usar o ROIC na prática
Ao analisar uma empresa, observe o ROIC dos últimos cinco a dez anos, e não apenas de um ano isolado. Compare o indicador com o de concorrentes do mesmo setor, porque negócios diferentes têm necessidades de capital muito distintas. E lembre-se de que nenhum indicador funciona sozinho: o preço da ação, o endividamento e a governança também importam. Se você está começando, vale revisar o que é uma ação antes de mergulhar nos indicadores.
Em resumo
O ROIC responde a uma pergunta essencial: a empresa usa bem o dinheiro que recebe? Negócios com ROIC alto e consistente, acima do custo de capital, tendem a criar valor e a recompensar seus acionistas ao longo do tempo. Em um país de juros altos como o Brasil, esse filtro é ainda mais importante para quem quer fazer o dinheiro trabalhar a seu favor.
Sucesso e Bons Investimentos!