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A Máquina que Pensa: A História por Trás do Chip Que Move a Inteligência Artificial

Confesso que comecei a ler A Máquina que Pensa com um pé atrás. Imaginei mais um livro sobre inteligência artificial cheio de promessas sobre o futuro e pouca substância. Estava enganado. O que encontrei foi uma das melhores histórias empresariais que li nos últimos anos, e um livro que tem muito a ensinar a quem investe.

Escrito pelo jornalista americano Stephen Witt e publicado no Brasil pela Intrínseca, com tradução de André Fontenelle, o livro conta a trajetória de Jensen Huang e da Nvidia, a fabricante de chips que se tornou a empresa mais valiosa do mundo. A obra venceu o prêmio de livro de negócios do ano do Financial Times e foi escolhida pela revista The Economist como um dos melhores livros de 2025.

De lavador de pratos a CEO mais observado do mundo

Huang nasceu em Taiwan e chegou criança aos Estados Unidos, onde passou por um internato rural no Kentucky e enfrentou uma infância difícil. Na adolescência, lavou pratos na rede de lanchonetes Denny’s, experiência que, segundo ele, o ensinou a trabalhar duro e a suportar o desconforto. Formou-se em engenharia elétrica na Universidade Estadual do Oregon e fez mestrado em Stanford.

Em 1993, aos 30 anos, sentou-se em uma mesa de um Denny’s em San Jose com dois engenheiros, Chris Malachowsky e Curtis Priem, e ali decidiram fundar uma empresa para criar chips gráficos para videogames. Nascia a Nvidia.

O começo foi tudo, menos tranquilo. Em 1996, o primeiro produto havia fracassado, um contrato importante tinha ido por água abaixo e a empresa ficou a poucas semanas de quebrar. Desse período nasceu um lema que Huang repete até hoje: a Nvidia está sempre a 30 dias de fechar as portas. A paranoia, nesse caso, não é um defeito, mas sim uma estratégia de sobrevivência.

A aposta que parecia loucura

O grande mérito do livro é mostrar que o sucesso da Nvidia não foi sorte. Os chips gráficos fazem milhares de cálculos simples ao mesmo tempo, a chamada computação paralela. Huang percebeu que essa capacidade poderia servir para muito mais do que jogos. Em 2006, a empresa lançou o CUDA, uma plataforma que permitia a cientistas programar as placas de vídeo para qualquer tipo de cálculo.

Durante anos, o investimento parecia um desperdício. Os acionistas não entendiam por que a empresa gastava tanto com algo que quase ninguém usava. Até que, em 2012, um grupo de pesquisadores da Universidade de Toronto treinou uma rede neural chamada AlexNet em duas placas da Nvidia e venceu com folga uma competição de reconhecimento de imagens. Huang entendeu antes de quase todo mundo o que aquilo significava e redirecionou a empresa inteira para a inteligência artificial.

Quando o ChatGPT chegou, no fim de 2022, a Nvidia já estava pronta havia uma década. Em junho de 2024, tornou-se a empresa mais valiosa do mundo e, em outubro de 2025, a primeira a valer US$ 5 trilhões.

Um retrato sem maquiagem

Witt entrevistou cerca de cem pessoas e teve acesso privilegiado a Huang, mas o livro não é uma homenagem. O autor mostra um líder brilhante e carismático, mas também exigente ao extremo, capaz de repreender funcionários em público, e conta que ele mesmo levou algumas dessas broncas. Esse equilíbrio torna a leitura mais honesta e mais interessante.

O que o livro ensina ao investidor

A primeira lição é sobre vantagem competitiva. O CUDA criou um ecossistema de programadores, ferramentas e bibliotecas que os concorrentes até hoje têm dificuldade de copiar. É um exemplo clássico de fosso econômico, aquilo que Warren Buffett procura em toda empresa que compra.

A segunda lição é sobre paciência. A aposta de Huang levou mais de dez anos para dar resultado. Grandes retornos raramente vêm de decisões rápidas, mas sim de convicções mantidas por muito tempo, o mesmo princípio que faz os juros compostos trabalharem a seu favor.

A terceira lição é sobre risco, e talvez seja a mais importante. Quem olha a trajetória da Nvidia hoje enxerga apenas o sucesso, mas a empresa esteve perto de quebrar e suas ações já despencaram mais de uma vez ao longo do caminho. Para cada Nvidia, existem dezenas de empresas que apostaram tudo e desapareceram. Por isso, entender o risco no mercado financeiro e não concentrar o patrimônio em uma única história, por mais fascinante que seja, continua sendo essencial. Uma carteira construída com a fórmula da diversificação permite participar dessas revoluções sem colocar o futuro da família em jogo.

Para quem é este livro

A Máquina que Pensa é indicado para quem quer entender, sem precisar ser engenheiro, por que a inteligência artificial depende tanto de chips e energia, e por que uma única empresa se tornou tão importante para os mercados. A leitura é rápida, bem apurada e cheia de bastidores.

Em resumo

Stephen Witt escreveu muito mais do que a biografia de um CEO. A Máquina que Pensa é uma aula sobre visão de longo prazo, vantagem competitiva e coragem para apostar contra o consenso, sem esconder os riscos e os custos dessa jornada. Para o investidor, a mensagem é clara: as grandes oportunidades costumam ser construídas em silêncio, muito antes de virarem manchete.

Sucesso e Bons Investimentos!