Omaha, 1942, um menino de 11 anos juntou suas economias e comprou três ações de uma empresa de petróleo. Viu os papéis caírem, resistiu, vendeu com um pequeno lucro – e, logo depois, assistiu às mesmas ações dispararem. Aquele menino aprendia ali, na prática, a lição que repetiria pelo resto da vida: paciência. Seu nome era Warren Buffett.
Oitenta e três anos depois, no último dia de 2025, Buffett deixou o cargo de CEO da Berkshire Hathaway. Ao assumir o controle da empresa, em 1965, ela valia US$ 18 milhões, ao se aposentar, a empresa vale mais de 1 trilhão de dólares. Encerra-se assim a trajetória mais extraordinária da história dos investimentos.
O menino que queria ser rico
Nascido em 1930, filho de um corretor de valores que mais tarde se tornaria deputado, Buffett foi um pequeno empreendedor desde cedo: vendia chicletes e refrigerantes de porta em porta, entregava jornais e chegou a instalar máquinas de fliperama em barbearias. Antes de completar 20 anos, já havia acumulado um patrimônio raro para um jovem da sua idade.
A grande virada veio aos 19, quando leu O Investidor Inteligente, de Benjamin Graham. O livro organizou tudo o que ele intuía sobre dinheiro. Buffett fez questão de estudar com o próprio Graham na Universidade Columbia, insistiu até conseguir trabalhar para ele em Nova York e, em 1956, de volta a Omaha, criou sua própria sociedade de investimentos. Durante mais de uma década, os resultados superaram com folga os do mercado.
Da tecelagem ao império
Em 1965, Buffett assumiu o controle da Berkshire Hathaway, uma tecelagem em decadência no nordeste americano. Anos depois, ele próprio diria que a compra foi um de seus maiores erros. Mas foi justamente a partir desse negócio fracassado que ele construiu sua obra-prima.
A fórmula foi tão simples quanto genial. Buffett comprou seguradoras, que recebem os prêmios dos clientes muito antes de pagar as indenizações, e usou esses recursos para adquirir empresas sólidas e ações de grandes companhias. Ao lado do sócio e amigo Charlie Munger, transformou a velha tecelagem em um conglomerado avaliado em cerca de US$ 1 trilhão, dono de ferrovias, empresas de energia, fábricas de doces e participações em marcas como Coca-Cola, American Express e Apple. Em 2008, em meio à maior crise financeira desde 1929, foi a ele que gigantes como o Goldman Sachs recorreram em busca de capital e de confiança.
Os números são difíceis até de imaginar. Entre 1965 e 2024, as ações da Berkshire renderam 19,9% ao ano, quase o dobro do índice S&P 500. Quem confiou US$ 1.000 a Buffett no início dessa jornada tinha cerca de US$ 55 milhões sessenta anos depois.
Por que Buffett foi único
Muitos investidores ganharam fortunas. Poucos mantiveram resultados excepcionais por seis décadas, atravessando guerras, crises do petróleo, bolhas, recessões e pandemias. E nenhum outro fez isso sendo, ao mesmo tempo, um professor tão generoso.
Durante 60 anos, Buffett escreveu cartas anuais aos acionistas da Berkshire em linguagem simples, bem-humorada e honesta, admitindo os próprios erros com a mesma naturalidade com que celebrava os acertos. Essas cartas se tornaram uma verdadeira universidade gratuita de investimentos. A assembleia anual da empresa, em Omaha, passou a reunir dezenas de milhares de pessoas do mundo inteiro, no que ficou conhecido como o “Woodstock dos capitalistas”.
Buffett também foi único na forma de viver. Morou durante décadas na mesma casa, comprada nos anos 1950, manteve hábitos modestos e comprometeu-se a doar a maior parte de sua fortuna. Em um mercado frequentemente associado à ganância, ele mostrou que é possível enriquecer com ética, paciência e integridade.
Dificilmente haverá outro
É difícil imaginar que alguém repita essa trajetória. Os mercados de hoje são muito mais competitivos e eficientes, a informação circula em segundos e as oportunidades evidentes desaparecem rapidamente. Além disso, poucos terão a combinação rara de inteligência, temperamento, disciplina e longevidade que permitiu a Buffett deixar os juros compostos trabalharem por mais de 80 anos. O talento pode até surgir novamente; a história, dificilmente.
Obrigado, Buffett
Para milhões de investidores ao redor do mundo – inclusive aqui no Brasil –, Warren Buffett foi muito mais do que um bilionário bem-sucedido. Foi um mestre que ensinou, com exemplos e sem cobrar nada, que investir é tornar-se sócio de bons negócios, que a paciência vale mais do que a pressa e que o caráter importa tanto quanto o talento. Muito do que discutimos neste blog, ao longo dos anos, tem as suas impressões digitais.
O Oráculo de Omaha deixa o comando, mas o seu legado permanece – nas cartas, nas ideias e em cada investidor que aprendeu com ele a pensar no longo prazo. Obrigado, Warren Buffett, por tudo o que você ensinou ao mundo dos investimentos.
Sucesso e Bons Investimentos!