Na manhã de 21 de janeiro, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Will Bank, banco digital que pertencia ao conglomerado do Banco Master. Dois dias antes, a instituição havia deixado de honrar pagamentos com a bandeira Mastercard e teve os cartões bloqueados. Esse é mais um capítulo do caso Master, que tratamos aqui em dezembro.
Com o Will Bank, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) estima desembolsar mais R$ 6,3 bilhões. Somada à conta do Master, a fatura chega a cerca de R$ 47 bilhões, o maior valor da história do fundo e algo próximo de 37% das suas reservas. A pergunta é inevitável: Até onde vai o limite do FGC?
O FGC não é dinheiro do governo
O FGC não é um órgão público nem usa dinheiro de impostos. É uma entidade privada, mantida pelas contribuições mensais dos próprios bancos associados e regulada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Funciona como um grande seguro coletivo: todos os bancos pagam, e o fundo cobre os investidores quando um deles quebra.
Para o investidor do Will Bank, há um detalhe importante. Como o banco fazia parte do mesmo conglomerado do Master, o limite de R$ 250 mil por CPF não se duplica. Quem já recebeu o teto pelos CDBs do Master não terá nada a mais a receber. A garantia é por conglomerado, e não por marca ou aplicativo.
Quem paga a conta
No curto prazo, a conta é dos bancos. Desde janeiro, o fundo discute com as instituições associadas e com o Banco Central como recompor o caixa, e entre as alternativas estão a antecipação de contribuições futuras e uma cobrança extraordinária temporária. A agência de risco Moody’s estimou uma sobretaxa de até 50% sobre a contribuição ordinária, com o peso maior sobre os grandes bancos, que concentram cerca de 75% dos depósitos garantidos.
No entanto, no longo prazo, quem paga é o cliente. Custos maiores para os bancos tendem a ser repassados em juros um pouco mais altos nos empréstimos e em taxas um pouco menores nos investimentos. Em outras palavras, o risco assumido por poucos acaba diluído entre todos. Os economistas chamam esse fenômeno de risco moral: quem se sente protegido tende a correr mais riscos, porque parte da conta será paga por terceiros.
Ainda assim, o sistema não está em crise. O FGC tinha cerca de R$ 120 bilhões em recursos líquidos antes do caso Master e segue capaz de honrar suas garantias. Até aqui, os problemas ficaram concentrados em um único grupo, sem sinais de contágio para os demais bancos.
Houve falha na fiscalização?
Os sinais de alerta não eram novos. Em setembro de 2025, o Banco Central vetou a compra do Master pelo BRB e, ao longo do processo, identificou indícios de irregularidades na venda de carteiras de crédito. Ainda assim, por anos o banco captou bilhões oferecendo CDBs muito acima da média do mercado, com a garantia do FGC como principal argumento de venda.
O próprio Conselho Monetário Nacional reconheceu o problema. Em agosto de 2025, aprovou regras mais duras: dobrou a contribuição adicional cobrada dos bancos que dependem muito de captação garantida e passou a exigir que parte desses recursos seja aplicada em títulos públicos. As mudanças, porém, só começam a valer a partir de junho de 2026. A regulação chegou depois do estrago.
Os limites de cada órgão
O caso também expôs uma disputa institucional. Em janeiro, o Tribunal de Contas da União (TCU) determinou uma inspeção no Banco Central para avaliar a atuação da autoridade monetária no caso Master. O BC recorreu, questionando a competência do relator para decidir sozinho, e a inspeção chegou a ser suspensa. Após um acordo entre os presidentes das duas instituições, a fiscalização seguiu.
Cada órgão tem o seu papel. O CMN define as regras, o Banco Central fiscaliza os bancos e decide sobre intervenções, o TCU fiscaliza os atos administrativos do BC, e a polícia e o Ministério Público investigam eventuais crimes. Para o investidor, o importante é que a autonomia técnica do Banco Central seja preservada e que, ao mesmo tempo, eventuais falhas de supervisão sejam apuradas com transparência.
O que o investidor deve fazer
Ao ver o FGC ser acionado duas vezes em dois meses, a reação natural é desconfiar de todo o sistema. Não é o caso. O fundo continua sólido, e os grandes bancos seguem saudáveis. Mas algumas lições ganham peso: respeite o limite de R$ 250 mil por conglomerado, e não por banco; descubra quem controla a instituição em que você investe, especialmente bancos digitais e fintechs; e desconfie de taxas muito acima do mercado.
Em resumo
O Will Bank não é apenas mais um banco liquidado, mas sim um sinal de que a garantia do FGC vinha sendo usada como argumento de venda para riscos que deveriam ter sido contidos antes. O fundo cumpre o seu papel, mas a conta, cedo ou tarde, chega a todos. O FGC é uma rede de proteção, e não um certificado de qualidade do banco.
Sucesso e Bons Investimentos!