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Crônica de uma Dívida Anunciada

“Crédito fácil, dívida difícil: Como a falta de conhecimento financeiro mantém milhões de brasileiros no ciclo do endividamento.”

Dia desses precisei comparecer à minha agência bancária no centro de São Paulo e pude ouvir o discurso do gerente do banco que falava com um senhor aposentado, um discurso parecido com esse:

“Então Sr. Antonio, o senhor sabia que tem uma linha de crédito no valor de R$15.000,00 liberado para o Sr.?” (gerente do banco).

“Nossa, não sabia, e como eu faço para liberar esse dinheiro para a minha conta?” (aposentado).

“É só o senhor assinar esses papéis, é super rápido e sem burocracia.” (gerente do banco).

“Qual o desconto por mês?” (aposentado).

“Vai ficar R$422,00 por mês.” (gerente do banco).

“Vou querer então.” (aposentado).

“Ótimo!” (gerente do banco).


E assim, mais um brasileiro se endivida e vem a somar aos milhões de endividados num ciclo sem fim.

Nesse caso verídico, nem mesmo perguntas básicas foram feitas pelo cliente, como “qual a taxa de juros do empréstimo?”. O processo foi tão rápido e simples que o aposentado, sem entender os custos reais do crédito, assinou os papéis e entrou no círculo vicioso do endividamento.

Infelizmente, este cenário não é um caso isolado. No Brasil, o endividamento da população é um problema crescente, com consequências devastadoras para a vida financeira de milhões de brasileiros. De acordo com dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), cerca de 77,5% dos consumidores brasileiros estavam endividados no final de 2024, o que equivale a aproximadamente 70 milhões de pessoas. Desses, uma parcela significativa está comprometida com dívidas de cartões de crédito, empréstimos pessoais e cheques especiais, produtos financeiros com taxas de juros extremamente altas.

A armadilha do crédito fácil é uma das principais responsáveis por essa situação. Quando as instituições financeiras oferecem crédito de forma tão simples e sem a devida explicação sobre os custos envolvidos, muitos consumidores acabam assumindo dívidas, que rapidamente se tornam um fardo pesado em suas finanças. Essas mesmas dívidas reduzem a capacidade de planejamento e investimentos das pessoas fazendo-as dependendes eternas dos grandes bancos e impedindo sua independência financeira.

A falta de conhecimento financeiro é um fator que contribui diretamente para esse problema. Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), 60% dos brasileiros não têm o hábito de planejar suas finanças, e 70% dos endividados não sabem exatamente quanto estão pagando de juros. Essa falta de informação coloca os consumidores em desvantagem, tornando-os mais vulneráveis ao endividamento e ao pagamento de taxas exorbitantes, que prejudicam o orçamento familiar.


O Impacto do Endividamento no Longo Prazo

O endividamento não afeta apenas o presente das pessoas, mas também o seu futuro. Ao comprometer grande parte da sua renda com parcelas de empréstimos, os consumidores deixam de constituir uma reserva de emergência e investir para garantir sua liberdade financeira.

De acordo com dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), em 2024, a dívida média das famílias brasileiras ultrapassou os R$ 3.000, e cerca de 20% das dívidas estavam relacionadas a produtos financeiros com juros superiores a 300% ao ano, como o crédito rotativo do cartão.

Esse ciclo vicioso de endividamento, em que as dívidas se renovam a cada mês e o orçamento é constantemente estourado, gera um efeito dominó na vida financeira das pessoas. A médio e longo prazo, isso pode resultar em inadimplência, problemas de saúde mental devido ao estresse financeiro, e a incapacidade de realizar sonhos, como comprar uma casa ou garantir uma aposentadoria tranquila.


A Solução: Educação Financeira e Consciência no Uso do Crédito

Enquanto o crédito fácil é uma das principais causas do endividamento no Brasil, a solução está na educação financeira. Em vez de simplesmente aceitar as condições impostas pelas instituições financeiras, é fundamental que o consumidor entenda as implicações de cada decisão financeira. Questões simples como “qual a taxa de juros do empréstimo?”, “qual o prazo total de pagamento?” e “qual será o impacto dessa dívida no meu futuro financeiro?” são perguntas que todos devem fazer antes de assinar qualquer contrato de crédito.

Uma questão que precisa ser debatida, também, é que boa parte desses empréstimos são utilizados para elevar o nível de consumo das famílias, dando uma falsa sensação de aumento no nível de renda. Entretanto, ao pagar juros, muitas vezes elevados para os emprestadores, o que está acontecendo é um verdadeiro empobrecimento do devedor e adiando a independência financeira pois não “sobra” dinheiro para invetimentos.

No cenário atual, a conscientização e a educação financeira são ferramentas poderosas para quebrar o ciclo do endividamento. Investir em conhecimento sobre orçamento, investimentos, e o impacto dos juros compostos pode ajudar os brasileiros a tomar melhores decisões financeiras e evitar cair nas armadilhas do crédito fácil.



Conclusão

A educação financeira precisa avançar no nosso país para criar um povo mais próspero e saudável financeiramente. Será necessária uma “terapia de choque” contra as dívidas, como prega Dave Ramsey, que defende o uso mínimo de crédito, exceto para a casa própria. O caso do Sr. Antônio é um reflexo de como o crédito fácil e a falta de informação podem aprisionar milhões em dívidas.

A chave para mudar essa realidade está na conscientização. É fundamental que a população entenda o impacto dos juros e como evitar as armadilhas do endividamento. Isso começa com simples perguntas, como “qual a taxa de juros?”, que podem salvar muita gente de grandes problemas financeiros.

A transformação real acontece quando as pessoas assumem o controle de suas finanças, buscam alternativas para sair das dívidas e controlar seus orçamentos. Com conhecimento e disciplina, é possível quebrar o ciclo do endividamento e construir um futuro mais seguro e próspero que necessariamente passa pelo investimento do seu dinheiro.

Sucesso e Bons Investimentos!