Até o início de julho, o Brasil parecia ter escapado do pior da guerra comercial iniciada pelos Estados Unidos. Desde abril, os produtos brasileiros estavam sujeitos à tarifa mínima de 10%, e as negociações seguiam em ritmo lento, mas sem sobressaltos. No entanto, na última quarta-feira, 9 de julho, o cenário mudou de forma abrupta: em carta enviada ao presidente Lula, Donald Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros, a partir de 1º de agosto.
A reação foi imediata. O dólar chegou a R$ 5,61 na manhã seguinte e o Ibovespa recuou. Para o investidor, a pergunta que fica é direta: o que isso muda na minha carteira – e o que eu deveria fazer agora?
O que foi anunciado – e quem sente primeiro
A carta justifica a medida tanto por razões políticas, citando o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e decisões do STF sobre redes sociais, quanto por uma suposta relação comercial desfavorável aos americanos – embora, na prática, os Estados Unidos tenham superávit na balança com o Brasil. A tarifa se somaria às sobretaxas setoriais já existentes, e Trump advertiu que qualquer retaliação seria acrescentada aos 50%. O governo brasileiro, por sua vez, afirmou que responderá com base na Lei da Reciprocidade Econômica.
Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil e receberam cerca de 12% das nossas exportações em 2024, algo em torno de US$ 40 bilhões. Para a economia como um todo, o impacto tende a ser limitado; para algumas empresas, porém, pode ser relevante.
Na Bolsa, os nomes mais citados pelos analistas foram Embraer, que tem cerca de um quarto da receita ligada a exportações para os EUA, Suzano, WEG, Tupy e frigoríficos como a Minerva. Em contrapartida, companhias que produzem dentro do território americano, como a Gerdau, tendem a sair relativamente protegidas. Em outras palavras, o tarifaço não atinge a Bolsa de forma uniforme – e é importante que o investidor entenda essa diferença.
Por que não agir no susto
O mercado já viveu um episódio semelhante há poucos meses. No início de abril, o anúncio das tarifas globais americanas provocou quedas fortes nas bolsas do mundo inteiro. Quem vendeu tudo no pânico realizou o prejuízo; quem manteve a disciplina viu os mercados se recuperarem em poucas semanas, à medida que as negociações avançaram e parte das medidas foi suspensa.
Isso não significa que o tarifaço seja irrelevante, mas sim que anúncios políticos costumam gerar mais ruído do que mudanças permanentes nos fundamentos das empresas. Ainda faltam semanas para a data prevista, há espaço para negociação e o desfecho é incerto. Decidir no calor da notícia é, quase sempre, decidir mal.
Como proteger a carteira de choques externos
O tarifaço é apenas o exemplo mais recente de um risco que o investidor brasileiro enfrenta o tempo todo: decisões tomadas fora do país, sobre as quais ele não tem nenhum controle. A boa notícia é que existem formas conhecidas de se preparar para elas.
Diversifique também em moeda e geografia. Uma carteira inteiramente em reais e em ativos brasileiros concentra todo o risco em um único país. Ter uma parcela em dólar, por meio de ETFs, BDRs ou fundos internacionais, funciona como um amortecedor: quando o real se desvaloriza em momentos de tensão, essa parte da carteira tende a se valorizar.
Conheça a exposição das empresas que você possui. Antes de vender uma ação por causa da notícia, verifique quanto da receita da companhia realmente depende do mercado americano e se ela produz localmente. Uma queda de preço motivada por medo, sem impacto proporcional nos resultados, pode ser até uma oportunidade.
Mantenha a base de renda fixa. Com a Selic a 15%, a parcela conservadora da carteira está sendo muito bem remunerada e garante tranquilidade para atravessar períodos de turbulência sem precisar vender ativos no pior momento.
Rebalanceie, não abandone. Se a queda de alguns ativos desequilibrou a carteira em relação à alocação planejada, o caminho é ajustar aos poucos, de acordo com a estratégia – e não reformular tudo a cada manchete.
Conclusão
Em resumo, o tarifaço anunciado pelos Estados Unidos é um choque relevante para alguns setores exportadores, mas não muda, por si só, os fundamentos de uma carteira bem construída. O que ele faz é lembrar ao investidor algo que costuma ser esquecido nos períodos de calmaria: o risco externo existe, e a melhor proteção contra ele é preparada antes da crise, não durante.
Diversificação, conhecimento das empresas investidas e uma base sólida de renda fixa não eliminam a volatilidade, mas sim permitem atravessá-la com serenidade. Afinal, quem investe no longo prazo não precisa acertar o desfecho de cada negociação – precisa apenas não ser forçado a sair do jogo.
Sucesso e Bons Investimentos!